Sou filha espúria da poesia; e bastardos não tem direito a choro nem vela. Minha alma oscila entre desejos e loucuras, não me dou por vencida, mas sei: a vida já me venceu. Me venceu no âmbito de um leque de possibilidades que fiz questão de despedaçar como se tira pétalas de uma rosa; e eu já deveria saber: quem muito tem, nada tem. Nada tenho e pouco quero, não reclamo porque sou a escória do que um dia foi uma ninhada de crias bonitas e asseadas: e eu lá, expressiva, esperando para abrir os olhos e saudando o útero daquilo que me pariu por medo desse mundo, e com razão. Mas talvez seja poetisa porque sou triste, mesmo que não queira ser, mesmo que finja não ser. Só queria que minha poesia viajasse de alma em alma, e que cada coração pudesse banhá-la de sangue e fazê-la pulsar tanto quanto; eu que não faço verso, faço prosa, mas poeta que é poeta rima na sua própria angústia. Mediante meus desejos, escreveria nos muros e nas esquinas e nas ruas e nos peitos sobre todos os plágios e sacrilégios que esse mundo é, e não passa de ser. A hipocrisia planeta água e de como o universo é bonito e Deus é bom longe das mãos humanas, e do quanto é calejado o toque de alguém que escreve como se não pudesse amar; e não posso. Passado e presente se cruzam, e não sou boa em desatino. se for, eu descabelo, arrebento, dilacero, e esqueço o que é dor. O pecado é a dor que me aflige um pouquinho a cada noite. E distrair os olhos e as unhas não é distrair o coração. Hoje, proponho à qualquer leitor a devolução de minhas asas e a suspensão das paixões. Eu preciso voar.
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| — | Vitória D. |



